QUANDO ATÉ OS OSSOS OUVIRAM A VOZ
E vi uma cidade de pedra branca. As suas muralhas brilhavam sob o sol.As suas torres erguiam-se para o céu. E nas suas portas estavam gravadas as palavras da Lei. Os homens vinham de longe para admirar a sua beleza. Diziam: «Aqui habita a luz.» E ajoelhavam-se diante das muralhas. Mas uma noite o Pai enviou o Seu sopro. O vento atravessou as praças vazias. Passou sob as portas dos templos. Roçou as vestes dos guardas.Depois desceu às fundações da cidade. E lá, sob a pedra branca, viu os ossos. Ossos amontoados no silêncio. Ossos de palavras pronunciadas sem amor. Ossos de promessas guardadas e nunca vividas. Ossos de verdades usadas para julgar e nunca deixadas entrar no coração. O Pai olhou para os ossos. E perguntou: «Poderão voltar a viver?» Ninguém respondeu.Então a Voz atravessou as fundações. Os ossos tremeram. Um som subiu das profundezas. Um osso procurou o outro.Uma vértebra reencontrou a sua forma. Uma mão abriu-se na poeira. E o sopro desceu sobre eles. Mas acima da cidade os guardas ouviram o ruído. Despertaram nos seus palácios. Correram para as muralhas. Chamaram os sábios. «O que se move sob os nossos pés?» E os sábios responderam: «São apenas as fundações. Resistiram por gerações. Continuarão a resistir.» Mas o ruído crescia. Porque sob as fundações o que tinha sido sepultado estava a ouvir. Então os guardas desceram. Traziam lâmpadas de ouro e chaves de prata. Abrirem a primeira porta. Depois a segunda. Depois a terceira. E quando alcançaram a câmara mais profunda, viram uma fratura na parede. Dessa fratura entrava uma luz que nenhuma das suas lâmpadas tinha acendido. Um deles ajoelhou-se. Pôs a mão sobre os ossos. E chorou. Porque reconheceu as palavras que tinha pronunciado e as portas que tinha fechado. Outro desviava o olhar. «Reparai a parede», ordenou.«Ninguém deve ver.» Mas o vento continuou a passar. E os ossos continuaram a mover-se. Então alguns guardas subiram para a cidade. Fecharam as portas. Espalharam cal sobre as fendas. Revestiram as muralhas de novo branco. E diante da multidão disseram: «Olhai. A cidade está intacta.» Mas sob a pedra o batimento crescia. E o Pai falou: «Lavastes as muralhas. Mas deixastes a fome diante das vossas portas. Polistes os copos. Mas não destes de beber a quem tinha sede.Guardastes o Meu nome. Mas quando bati através daqueles que tínheis rejeitado, não Me reconhecestes.» Alguns baixaram a cabeça. Outros apertaram as chaves. E disseram: «Esta não pode ser a Sua Voz. Porque a Sua Voz não colocaria em causa aquilo que construímos.» Mas o sopro atravessou novamente a cidade. E as lâmpadas de ouro vacilaram. A cal descolou-se das muralhas. As palavras gravadas nas portas tornaram-se visíveis novamente. E pela primeira vez os guardas já não podiam lê-las sem as escutar. Então o Pai falou aos ossos: «Eu não vos chamo para que volteis a esconder-vos. Eu vos chamo à vida.» A terra tremeu. A parede abriu-se. E das profundezas da cidade ergueu-se um sopro. Não vinha das torres. Não vinha dos tronos. Vinha daquilo que tinha sido sepultado. E enquanto alguns guardas ainda tentavam salvar as muralhas, os ossos ouviram a Voz. E ergueram-se. Então o Pai olhou para os sepulcros caiados.E chamou também aqueles que tinham permanecido no seu interior. «Saí.» Mas eles temiam a luz. Porque na luz teriam visto as suas próprias mãos. As portas fechadas. As palavras usadas como pedras. Os rostos que não tinham querido reconhecer. E o Pai disse: «Não vos chamo para vos expor à vergonha. Eu vos chamo para que possais depor aquilo que vos manteve na morte.» Um dos guardas olhou para as chaves que apertava. A sua mão tremeu. Durante toda a sua vida tinha acreditado que aquelas chaves o tornavam próximo do Pai. Agora compreendia que as tinha usado também para fechar o seu próprio coração. Lentamente abriu a mão. As chaves caíram na poeira. E o seu som atravessou o sepulcro.Outro guarda ouviu-o. Depois outro. Alguns permaneceram imóveis. Outros baixaram a cabeça. E no silêncio uma voz perguntou: «Pai… também estes ossos podem voltar a viver?» Então o sopro alcançou o limiar. Entrou entre as pedras.Roçou os ossos secos. Parou diante dos corações endurecidos. E o Pai respondeu: «Enquanto a Minha Voz vos chama,escutai. Enquanto o Meu sopro vos alcança, abri-vos. Não sois chamados a custodiar a morte. Sois chamados à vida.» A porta permaneceu aberta. E das profundezas do sepulcro ouviu-se um som. Um osso tremeu. Depois outro. E na poeira,onde já ninguém procurava a vida, algo começou a respirar.
